2º COLÓQUIO DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS

16 a 18 de novembro de 2021 / Online

As transmissões do evento podem ser acompanhadas aqui no menu em programação ou no canal do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da UFF no YouTube

Apresentação



José Saramago nasceu em 1922, “numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa”. Seus primeiros interesses para a leitura se formam a partir dos jornais ofertados pelo pai, que foi jornaleiro em meados dos anos 1920, e pela literatura, a partir do contato com A Toutinegra do Moinho, de Émile de Richebourg, primeiro livro que teve, presenteado pela mãe. A formação para o que mais tarde foi seu ofício e o fez reconhecido foi autodidata — “Lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre.”*


O restante da história é praticamente conhecido de todos e as biografias o explorou à sua maneira: a militância política; a atuação como jornalista; a publicação dos primeiros livros; o longo tempo de porfia feito de tentativas de escritas, da atividade de crítico, da tradução de autores diversos a partir do francês; o reconhecimento; o Prêmio Nobel de Literatura em 1998; a sagração. Para agora revisitarmos esse itinerário no âmbito de uma data célebre, o centenário, último instante foi decisivo. Mas, não apenas. A obra continuamente lida e descoberta e as regiões menos conhecidas ou menos tocadas oferecem valores que ultrapassam os sentidos primitivos da celebração.


No caso da obra e do pensamento de José Saramago, formadores de uma consciência interrogativa, intelectiva e crítica acerca do mundo e das nossas relações comunitárias, são os valores fundamentais que devemos colocar em plano motivador. Há uma visão e modo de estar no mundo colhidos na vida que o escritor português trouxe para a literatura — “uma espécie de evangelho segundo José Saramago”, para citar uma feliz expressão de Eduardo Lourenço ao jornal Público (2010) — e este deve ser o elemento motivador de encontros como o nosso, que, abrindo alas para muitos outros, abre o ano de centenário.


Este é o 2.º Colóquio de Estudos Saramaguianos. O que se designa estudos saramaguianos é, como notamos, um amplo universo de leitura cuja dimensão é cada vez mais difícil de precisar, porque feito de uma comunidade de leitores situada em lugares e línguas das mais diversas; sabe-se que, em todas elas, os interesses se afinam como centro ou norte na obra de José Saramago. O evento é uma pequena parte desse universo.


Parte dos interesses aqui tem sua relação com os encaminhamentos ofertados na primeira edição, quando, motivados por outra efeméride, a de duas décadas de atribuição do Prêmio Nobel de Literatura ao escritor português, discutimos sua obra em múltipla interface: seja com questões suscitadas no âmbito da forma, do tema e da expressão, seja no diálogo com outras obras, seja ainda com outras expressões artístico-criativas.


Neste segundo encontro, a obra nos permitirá retomar a interface do diálogo de 2018 e avançar em várias outras frentes: com ela própria, com o biográfico, os múltiplos contextos, o criativo e o estético, a diversidade crítica sempre possível de iluminar e expandir questões tocadas por uma literatura que se abre sempre enquanto experiência e nunca se coloca a serviço de uma contemplação narcísica e desinteressada do mundo.


Nesse sentido, vale retomar alguns dos princípios que orientam este projeto. A importância deste evento é a de estabelecer diálogos, propiciar o intercâmbio de experiências de leituras e perspectivas em vistas de contribuir para a tessitura de um momento fundamental na sobrevida do escritor — e igualmente para seus leitores, que encontram, no seu universo ficcional e nas suas provocações, peças fundamentais para a postura de desassossegados ante esta realidade fugidia porque complexa e cujos meandros cobram de nós o necessário debate.


E repetimos. Nosso interesse é compor um painel multissignificativo que dialogue com as várias possibilidades de leituras e de leitores interessados em oferecer algumas peças indispensáveis ao saber literário e à formação humana — algo escasso numa sociedade cada vez mais presa aos limites impostos pela técnica. As abordagens que formam as vozes desse encontro são diversas porque uma obra de igual plurissignificação não se reduz a uma ou outra crítica.

Esta edição do Colóquio de Estudos Saramaguianos reúne pesquisadores do Brasil, Argentina, Espanha e França; são leitores atentos da obra de José Saramago de pelo menos três gerações. O programa do evento situado entre os dias 16 e 18 de novembro de 2021 se organiza por discussões que examinam ao menos três dimensões: a da obra, desde o que se designa como
período formativo (nos termos propostos por Horácio Costa, 1997 / 2020) ao período da maturidade; as intersecções entre a obra e outros campos do saber, como a filosofia, a biografia, a autobiografia, os estudos narrativos; e os diálogos intertextuais que tomam como ponto de inflexão a literatura saramaguiana.



* Os destacados neste parágrafo são do texto “Autobiografia” publicado no site da Fundação José Saramago.